Plano Bosque dos Buritis
Apartamento no Setor Oeste em harmonia com a arte
Em novembro de 2025, a gente revisitou a história de um Plano que, para nós, faz muito sentido, não só pelo resultado, mas pelo que ele consolidou sobre o nosso jeito de projetar, planejar e escutar um cliente. Um tipo de marco silencioso: quando a gente olha para trás e percebe que ali nasceu uma postura. Um compromisso com a verdade do espaço, com o tempo, com a personalidade de quem mora e com a coragem de não maquiar a arquitetura para parecer outra coisa.

A história começa em 2010, quando fomos convidados a transformar uma cobertura em um edifício dos anos 80, no Setor Oeste, em Goiânia. Um prédio com a linguagem de outra época, estrutura robusta, matéria presente, e uma planta que carregava aquela herança comum: ambientes mais fechados, circulação menos fluida, uma sensação de peso que, às vezes, chega antes mesmo da gente entrar.

Por dentro, o apartamento parecia “sisudo”. Quase claustrofóbico. Era como se o espaço tivesse sido desenhado para conter, quando o que a vida ali pedia era o oposto: abertura, respiro, luz, arte e encontro. E isso não era uma suposição nossa. Era um contraste evidente, porque a cliente, uma empresária de personalidade fortíssima, decidida, elegante era exatamente o contrário daquele apartamento.
Ela era movimento. Ela era presença. E, além de tudo, era colecionadora de arte: das maiores que tivemos a oportunidade de conviver de perto. Alguém que não queria uma casa “bonitinha”. Queria uma casa com força, inteligência e verdade.
Naquele momento, em 2010, já era o terceiro projeto que fazíamos para ela. Existia sinergia. Existia confiança. E existia uma coisa rara: a liberdade real para repensar o todo. Ela passava pelo escritório para dar aquele “cutucão” não para controlar, mas para provocar. Para tirar a gente da zona de conforto. Para exigir que cada escolha tivesse motivo.
E é por isso que, quando voltamos a olhar para esse projeto em novembro de 2021 e depois em novembro de 2025, ele não apareceu como uma lembrança estática. Ele voltou como um lembrete vivo do que acreditamos: uma reforma não precisa apagar a idade do lugar; ela pode continuar a narrativa.
As decisões que dão “alma” ao apartamento
Aos poucos, fomos entendendo que o desafio não era “modernizar” um apartamento antigo. Era fazer com que ele respirasse. Era transformar um espaço pesado em um espaço fluido. Era criar uma casa que sustentasse duas presenças ao mesmo tempo: a história do edifício e a história de quem iria viver ali com arte, humor, memória e alma.
E é daqui que a narrativa começa de verdade: do diagnóstico do que estava travado… e da primeira decisão que destravou a casa inteira.

Decidimos deixar o apartamento verdadeiro. Tiramos o gesso, mostramos as estruturas, revelamos o concreto. As paredes foram apenas pintadas, sem revestimentos nobres. O piso de mármore, o teto de concreto aparente, os forros de madeira preservados. Tudo sem ostentação, um projeto honesto, sem soberba.
Propusemos fazer uma parede com aspecto de tapume velho. Inspirados por artistas que trabalhavam com reconstrução, imperfeição e memória. O marceneiro destacava lâminas de madeira, queimava, colava, montava manualmente. O resultado era cheio de acidentes, texturas e alma. Algumas pessoas achavam que a obra não tinha acabado e ela amava isso. Era exatamente o que queria: algo que intrigasse, que tivesse força.
Uma casa que conversa com o tempo
A atmosfera da sala era um diálogo entre gerações: design modernista, arte contemporânea e afeto. Parte do mobiliário foi aproveitado; muita coisa veio de antiquários, quando isso ainda não era moda. Peças com história têm um tipo de presença que loja nenhuma fabrica.
E a arte era protagonista sem ser exibicionista. Até a televisão virou episódio: na inauguração, achamos que uma “escultura preta” estava fora do estilo e era a TV. A solução dela foi comprar uma videoarte para esconder. E comprou. A parede voltou a ser arte. Esse era o jeito dela: transformar o óbvio em linguagem.
O legado e o convite
Esse projeto representa tudo o que acreditamos: verdade, história e autenticidade. Durante a pandemia, essa cliente amiga nos deixou. Mas o que ela nos ensinou continua aqui em cada projeto, em cada escolha. A tradução do seu estilo de vida em seu Plano perfeito.
Hoje, o apartamento será desmontado. Vai mudar de mãos. Vai virar outra história.
Anexo: A história completa desse projeto também está no canal do YouTube do Plano Studio, onde a gente narra os bastidores, as escolhas e o que esse apartamento nos ensinou. https://www.youtube.com/watch?v=CmDRySTnqvw




